sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Os vales de Galicia
Com suas névoas e garoas
selaram minha melancolia
antes de eu nascer.

Os paralepípedos úmidos
das noites invernais de Buenos Aires
guiaram minha infancia
na malemolencia de um tango sem perdão.

Como não ser poeta?

Não é à toa que renasci em São Paulo
flanando na sua garoa tão antiga.
Fui atrás de ti meu amor
porque teu sorriso falava de tristeza
e nosso encontro se fez inevitável.
Não me peçam para salvar almas da saudade,
elas se amam no aconchego do evocado.

Como não ser poeta?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Meu corpo se revela

Meu corpo se rebela:
revela irritado
o que não gosta
e se queixa de mim
algoz involuntário
enredado em correntes
que o apertam
e que porém mais apertem,
tal vez,
o coração.


Ou será o coração
que aflito procura
o socorro do hospedeiro
e lhe pede,
calmo e sábio,
que relaxe e saiba
apenas relevar,
deixar pra lá?

Porque o filósofo ja disse:
o homem sábio não espera...


Noi Mafiosi

Noi mafiosi
siamo
prima de tutto
fedele alla famiglia
e quando diventiamo vecchi
facciamo de conta
che siamo consiglieri
e non lavoriamo piú.


A vida escoa...

A vida escoa
resvala
se esvai
nas mãos da pressa
atrás do nada.
Se há nada no fim
me devolve essa vida
que já perdi
afoito à toa.
Se no final há Deus
minha lentidão feliz
caminha à sua procura.


De repente eu

De repente
eu

tão só
grão de areia
sem outro Deus
sem outro outro
sem mais o quê
tão só
sozinho
eu.


Medo, Angústia, Tristeza

Medo
angústia
tristeza
velhos camaradas
voltam à guarida
mas eu conheço tanto
tanto a sua intriga
que os recebo gentil
nesta visita.

Depois
fica a morada da alegria
o encontro com meu Deus
que iluminado
mora dentro de mim
e em mim se aninha.


O Brasil me dá ternura

O Brasil me dá ternura
porque terno é seu povo abandonado
terno o negro
terno o índio
terno o branco
terna a paisagem de todas as cores
terna a esperança nunca abandonada.


Sonhei o tempo

Sonhei o tempo
no devaneio do porvir
e agora que ele veio
posso finalmente desfrutar
da borboleta azul.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Enrodilhado

Enrodilhado num canto
me protejo
e deixo que a vida
faça seu papel.


Quebrar O Casulo

Quebrar o casulo
expandir-se à vontade
no leito do universo
sentir a vida
no devir do devaneio
na entrega sem fim
do aqui e do agora
ao encontro de mim
comigo à toa.


Mirar Em Mim

Mirar em mim
eis o alvo
está aqui
apenas eu.
Pra que outros alvos,
espelhos, espirais ou labirintos?
Mais nada a conquistar,
tão só a aventura de viver.

Miro em mim
me disparo
e o alvo é uma espiral em movimento
um túnel sem fim
serpentina irresistível
eu e a vida
flecha e alvo
disparados no espaço
juntos
se amando apaixonadamente.


Procurei Meu Alimento

Procurei meu alimento
em sonho alheio
sem saber ver o pão
que eu mesmo amasso
o corpo escancarou seu desespero
e o âmago doeu de tanto espanto.

Desde que nasci me soube ateu
sem direito à missa que eu mereço
escondendo de mim que o Messias...
era eu mesmo.

Mas hoje eu posso celebrar
tão sagrado e tão humano
meu ritual no altar da vida
ministrando assim solene
minha própria Eucaristia.



sábado, 14 de maio de 2011

Vidas Paralelas

As vidas paralelas não se tocam
mesmo no infinito
são firmes, retas, incorruptas,
mas não deixem saber uma da outra
que de tão certas
ficarão tortas
e de tão claras virarão feras
até acabarem tolas.



As Brumas de São Paulo

As brumas de São Paulo
tecem uma rede de névoas
e eu,
amarrado na cruz de Santiago,
vejo tímidos e difusos brilhos além dela.
Condenado ao sacrifício
não consigo desatar os nós da minha cruz ladra,
à esquerda de Deus homem.



Decidi o mergulho...

Decidí o mergulho
me apostei no precipício
e a vertigem foi inevitável.
Ah! que tontura,
que medo,
algo me empurrando,
algo me detendo,
mas um braço mais forte
me soltou no vazio
e até agora estou caindo.
Cairei para sempre
porque finalmente descobri
que em realidade é um vôo
e eu feito cometa de papel
me entrego ao infinito.



Ecos dos Brilhos

Ecos dos brilhos,
dos olhos, dos jogos,
dos mesmos meninos,
dos lances, dos sonhos,
das luzes, dos ninhos,
dos cantos, dos outros,
dos nossos antigos
e tantos tão loucos
amores perdidos,
afetos saudosos...

Cadê meus queridos,
onde foram todos?

Como amar o tempo,
se ele vai embora
e apenas reflexos
turvos na memória
me acudem sem nexo
para reencontrar
o amigo perdido,
o amor escondido
que eu não soube amar.

Agora no aqui,
aqui no agora,
só é cantando
que posso esperar,
talvez pela vida,
talvez pela morte,
não sei qual talvez.
Talvez nem talvez.

Se sinto saudades
de não ter amado,
só resta é mesmo
partir ao contrário
e sair amando
até não agüentar.

Porque isto é a vida:
amar, ser amado,
viver sem cansaço
a arte sem par,
de dar sem pedir
e pedir sem dar.

Oh! Minha vida!
Como foi difícil
descobrir o ar,
respirar bem fundo
e poder suspirar
a saudade e o pranto,
o encontro, afinal.

Final de um começo,
processo sem fim,
descoberta aberta
de como ir e ir
sem chegar ao nunca.

Só viver, bailar,
em fim....

domingo, 10 de abril de 2011

Outras cabeças

Outras cabeças
fantasiam novelas
a minha sonha
filmes do Bijou
estou só no cinema
estou só no meu filme
estou só
o sonho é meu e estou comigo.
A Máscara vive de repente

A Máscara
vive de repente
a verdade do tempo
e vira história
retrato do não vivido
porque errado
e do sim vivido porque certo.

E é assim:
de tão torto e tão direito
aquilo que era certo
ficou feio
e aquilo que era errado
ficou lindo
(e na saudade).
Gira a Terra em Si

Gira a Terra em Si

que nem eu giro
giro em mim
carrosel interno
retorno eterno
cosmos infinito do devir
que quer fazer do passado
o seu presente
e descobre que o movimento
é sua própria morte
e seu renascer.